Quando penso em como cheguei ao trabalho que faço hoje, é fácil puxar a história pelo primeiro computador que abri. Só que ela começa um pouco antes, quando eu ainda aceitava o trabalho que aparecia sem saber direito onde aquilo ia dar.
Foi assim que lavei carros e animei festas infantis. Depois virei a pessoa que um escritório chamava quando um computador parava de funcionar. Mais tarde passei um tempo na rua, indo de escritório em escritório para arrumar redes e passar cabos. Enquanto eu vivia cada um deles, esses trabalhos não pareciam parte da mesma história. A conexão só apareceu muito depois.
Quando tudo isso começou, eu tinha quinze anos, talvez dezesseis. Não lembro qual, e já parei de tentar lembrar.
Na lavagem eu não via futuro. Nada de sofisticado nessa conclusão. Eu olhava para aquele trabalho e não conseguia enxergar qual seria o próximo passo para mim. Também não gostei de como as pessoas se tratavam, e essa parte voltou nas festas.
Nas festas tinha uma coisa a mais. As crianças eram, na maior parte das vezes, a parte fácil. O difícil eram os pais. Eles chegavam com uma imagem pronta de como a festa devia ser e de como o filho devia reagir, e quando a criança não seguia o roteiro, a frustração caía em cima de quem estava com o microfone na mão. Eu não tinha palavras para isso na época, mas dava para sentir que a expectativa era do adulto parado atrás da criança, e a criança é que estava carregando.
Depois vieram os computadores. Primeiro dentro de um escritório só, onde eu mantinha as máquinas funcionando e abria o gabinete que tivesse parado de ligar. Também não era o que eu queria. Mas era perto.
E perto, eu descobri, é uma categoria que ninguém te ensina a valorizar.
Dali fui para uma empresa que atendia vários escritórios ao mesmo tempo, e o trabalho cresceu junto. Rede, depois os servidores em si, depois instalar a infraestrutura física de escritórios grandes, o rack, o cabeamento, os roteadores, o que aparecesse. Nenhum desses era o emprego dos sonhos. Cada um ficava um passo mais próximo do que eu queria, e cada um só existiu porque eu tinha aceitado o anterior.
É isso que eu queria escrever. Um emprego que não é bom te dá duas coisas que esperar não dá. Ou ele te mostra que aquele trabalho te serve, e você ganha chão para o próximo. Ou te mostra que não serve, e você ganha uma resposta. Nos dois casos você sai sabendo mais do que entrou.
A lavagem me deu uma resposta. As festas me deram outra, mais funda, que levei anos para entender. O trabalho com computadores, servidores e redes me deu chão. Nada disso eu teria conseguido de fora.
E as respostas não foram tudo que eu levei.
Na lavagem, aprendi que havia uma ordem para fazer o trabalho e que o resultado dependia de respeitar cada etapa. Foi meu primeiro contato com processo, mesmo que eu ainda não usasse essa palavra.
Nas festas, aprendi a lidar diretamente com pessoas frustradas e a escutar antes de responder. Isso ainda me ajuda quando preciso entender o que alguém está tentando dizer por baixo da irritação.
O trabalho com computadores, servidores e redes me mostrou que uma máquina nunca está sozinha. Ela depende da rede, do cabeamento, dos equipamentos ao redor e das pessoas que precisam dela funcionando. Hoje, quando olho para um sistema, ainda procuro essas dependências.
Nada disso foi planejado. Aceitei esses trabalhos porque eram os que existiam, e o que eles deixaram em mim só ficou visível a partir do trabalho que tenho agora.
Conheço pessoas que estão há muito tempo procurando o emprego certo. A frase que mais ouço é alguma variação de “eu não vou trabalhar por menos de X”. Muitas ainda não tiveram a primeira experiência prática na área. Eu entendo de onde vem. Ninguém quer se desvalorizar, e existem contas, limites e trabalhos que custam mais do que devolvem.
Ao mesmo tempo, quando nenhuma oportunidade abaixo do salário ideal entra na conversa, o tempo passa e a experiência que ajudaria a alcançar esse salário nunca começa.
Reconheço aí uma distância entre o roteiro imaginado e o que está acontecendo de verdade. Enquanto o emprego perfeito existe só na imaginação, ele não precisa enfrentar o cotidiano. Dá para esperar por ele sem correr o risco de descobrir que não era aquilo. Tem dias em que eu acho que é exatamente isso que a espera está protegendo.
Essa escolha não custa o mesmo para todo mundo. Eu sou um homem branco, e isso também faz parte da história que estou contando.
Houve obstáculos que eu não precisei enfrentar para entrar em alguns espaços, ser ouvido ou receber outra chance. Em alguns momentos, pude aceitar um trabalho pensando no que ele abriria depois. Para muita gente, o salário de agora precisa sustentar a vida de agora, e o mercado fecha portas antes que a experiência possa começar. Por isso, não trato meu caminho como uma receita.
Não estou dizendo que qualquer trabalho serve. Alguns só gastam. Um lugar que te isola, ou que te faz esconder o que você sabe, não move nada.
Naquela época, eu precisava entender o que cada oportunidade me permitia aprender e para onde ela poderia me levar. Hoje a situação é outra. Estou feliz e realizado com o trabalho que faço. Não escrevo este texto por estar procurando o próximo lugar. De onde estou agora, consigo olhar para trás e entender como aquelas experiências me trouxeram até aqui.
Se eu tivesse esperado o emprego certo aos quinze, eu teria esperado muito tempo. Ele ainda não existia, e eu também não.